A maçonaria e a República de Platão

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A maçonaria e a República de Platão

A República, colectânea de diálogos escritos pelo filósofo Platão, no Século IV a.C., é o primeiro modelo teórico de uma sociedade utópica que se conhece. Dizemos teórico porque entendemos que antes deste modelo especulativo criado pelo famoso filósofo grego, a partir de ideias defendidas pelo seu mestre Sócrates, outra utopia já tinha sido tentada na prática, com a experiência do estado teocrático que Moisés criara para o povo de Israel. Neste sentido, podemos dizer que se Israel foi o modelo operativo que inspirou a maçonaria, a República de Platão foi o arquétipo especulativo que lhe serviu de base.

Aliás, é de Platão a metáfora segundo a qual Deus é o Grande Arquitecto do Universo (Tecton). A sua República (Politeia), é a visão ideal de um estado politico e social perfeito, que contempla o sonho de uma vida harmónica, fraterna, feita com justiça e fraternidade, dominando para sempre o caos que uma realidade de disputas, inveja, cobiça e desorganização provocam. Este arquétipo servirá, ao longo dos tempos, de matriz inspiradora para todas as utopias sonhadas ao longo da história e da maioria dos movimentos de reforma social que desde então a humanidade conheceu [1].

A República platónica é uma cidade ideal, governada por uma elite dirigente de políticos e filósofos, cujo único guia é a razão. Todas as actividades económicas, sociais e políticas desta sociedade são orientadas pela lógica e pela racionalidade. Estas elites são formadas através de um sistema de confraria, onde os guardiões representam a encarnação da pura racionalidade e os seus discípulos são pessoas dóceis, capazes de compreender e aceitar todas as renúncias que a razão lhes impõe. Nesse sistema, o principal objectivo é aprender a controlar as paixões pessoais e evitar as disputas que elas acarretam.

E nesta proposição que identificamos o jargão maçónico que situa a Loja maçónica como um lugar onde o Irmão vai em busca de sabedoria e aprendizado que o ajude a controlar as suas paixões. Nesta conjuntura, os interesses pessoais acabam integrando-se com os interesses da sociedade em geral. Destarte, os dirigente dessa República, que são uma espécie de filósofos detentores da máxima sabedoria, acabam sendo a tipificação perfeita do demiurgo terreno, uma projecção do Tecton, o Grande Arquitecto do Universo; e seu líder uma espécie Grão-Mestre, detentor do supremo conhecimento [2].

O ideal platónico foi centrado numa ideia muito em voga na tradição grega da época, especialmente nas cidades—estado onde a democracia era o sistema de governo vigorante. Este ideal tinha as suas raízes espirituais plantadas principalmente nos chamados Mistérios de Elêusis, tradição religiosa grega que integrava um objectivo religioso, que era principalmente o de homenagear a deusa Ceres — protectora da agricultura — para que esta favorecesse as colheitas, e um objectivo profano, já que esse festival incorporava uma grande importância política e social, pois destinava-se principalmente a destacar os “eleitos” dentro da sociedade ateniense. Desta forma, os iniciados nos Mistérios Eleusinos constituíam uma elite intelectual, política, económica e militar na sociedade grega [3]. Face à tradição de destacar mais as actividades intelectuais do que as operativas, o trabalho manual não era muito valorizado na cultura das cidades-estado da Grécia. Em consequência, a classe dos trabalhadores e artesãos, de maneira geral, não era considerada classe cidadã, pois a sua ocupação, tida como subalterna, não lhes dava tempo para participar das reuniões públicas, nem permitia que ela acompanhasse os intelectualizados diálogos e serões que eram realizados nas praças públicas entre os mestres e os seus discípulos. Assim, para Platão e os seus seguidores, o “ homem universal” da esperança maçónica, realizava-se na figura do cidadão filósofo, que não precisava trabalhar para ganhar a vida, e assim podia viver contemplativamente, buscando a verdade nas actividades especulativas. Era, neste sentido, um ideal altamente elitista [4].

Platão

Os temas discutidos na República de Platão começam com o sofista Trasímaco colocando as suas ideias a respeito de Direito e Justiça num diálogo com Sócrates e os seus discípulos. A sua proposta era de que o uso da força constituía um direito do Estado, e assim a Justiça acabava sendo o interesse do mais forte. As classes dominantes dentro de um Estado faziam as leis visando os seus interesses e determinavam o que era justo, declarando como injusto todo aquele que transgredisse as regras que eles estabeleciam.

O tema evolui para a questão: “Como seria uma cidade justa?”, pergunta formulada por Gláucon e Adimanto, dois discípulos de Sócrates. Platão regista que a resposta de Sócrates é que Justiça é resultado de uma relação entre indivíduos e depende da organização social. Sendo cada cidadão possuidor de um rol de competências e qualidades, a Justiça está em fazer aquilo que lhe compete, de acordo com a função que exerce na sociedade. Quanto mais simples a vida social, mas simples a definição de Justiça. De cada um segundo a sua capacidade, a cada um segundo a sua participação. A partir desse pressuposto, Platão desenvolve os alicerces da sua República. Os homens viveriam produzindo de acordo com as suas necessidades, trabalhando muito e sendo vegetarianos, evitando o luxo e os prazeres da opulência. Por outras palavras, os homens seriam simples e virtuosos [5]. Platão imagina um sistema de governo, onde as crianças são educadas pelo próprio Estado e não pela família. Assim, tão logo as crianças se libertassem da dependência maternal, eles seriam apropriados pelo Estado e educados seguindo o sistema da República. Aprenderiam a amar a virtude e odiar os vícios; a apreciar a vida colectiva, a compartilhar, a evitar a ganância, a promiscuidade, a luxúria, a inveja. Era, pois, o que a maçonaria define como “levantar templos à virtude e cavar masmorras ao vício”.

O elitismo das concepções platónicas transparece na ideia de que o governo deveria ser exercido pelas pessoas mais preparadas intelectualmente, ao invés dos mais populares, que numa eleição democrática sempre são os eleitos. E, segundo Platão, na política, a corrupção e a incompetência caminhavam juntas, por isso era preciso que o sistema contemplasse um meio de evitar que tais pessoas tomassem conta do poder público, pois como o seu mestre Sócrates já tinha identificado, a psyche humana dificilmente resiste à corrupção do poder. Como se vê, este é um tema bastante antigo que ainda hoje constitui o principal problema da nossa sociedade [6].

Uma das críticas mais ácidas que ainda hoje se faz à República de Platão está na ideia de que a educação deve ser conduzida pelo Estado, sem a interferência da família. Esta proposta seria literalmente ampliada em regimes de excepção como os que Hitler, Mussolini, Stalin, Mao-Tse Tung e outros ditadores implantaram nos seus países. Por isso, a República de Platão tem sido, muitas vezes acusada de ser inspiradora de regimes fascistas [7].

Todavia, ao se relacionar as ideias de Platão com o ambiente em que elas floresceram, não se pode deixar de reconhecer que elas são um fruto da época e da cultura na qual o grande filósofo viveu. A República de Platão tem clara inspiração em dois arquétipos bastante entranhados na cultura grega, que é o elitismo cultivado nos chamados Mistérios Eleusinos e na ideia da democracia, que se diga, na verdade pouco tinha a ver com o termo, como hoje se emprega. De facto, a democracia, mesmo a que era empregada em Atenas, a mais democrática das cidades-estado gregas, era um regime de igualdade de direitos para os iguais, e não para o povo em geral. Por iguais deve-se entender os proprietários de terras, os homens com recursos económicos suficientes para comprar o direito de voto, os homens livres, enfim, a chamada elite da sociedade. Entre eles encontravam-se os políticos, os administradores públicos, os comandantes militares, e de um modo geral, os filósofos, que constituíam a elite intelectual. Aliás, para ser filósofo era preciso ser livre e ter posses, pois que o exercício da filosofia não era possível a um homem que precisasse trabalhar.

As questões filosóficas que se referem à moral, à religião e à administração da coisa pública recebem um amplo tratamento nesta obra de Platão. Uma das suas proposições, a de que a crença em Deus (ou deuses) deve constituir uma obrigação de Estado, pois que é nela que se ampara a base moral, é uma proposta claramente adoptada na maçonaria. Para o Maçon não há uma religião a ser adoptada, mas sim uma crença que deve ser unânime: a de que existe Deus [8].

E quanto à religião, na utopia platónica, esta está mais próxima de um sistema doutrinário do que de um sistema de crenças, propriamente dito. Aqui, a ênfase é posta no cultivo do chamado “Mundo das Ideias.” Isto porque, para Platão, existia um mundo transcendente, de existência autónoma, que está por trás do mundo sensível. Este é o “Mundo das Ideias”, que são formas puras, modelos perfeitos eternos e imutáveis, inspirados pelas próprias emanações que vêm do Grande Arquitecto do Universo (Tecton).

O “Mundo das Ideias” tem um paralelo bastante próximo à mística filosófica desenvolvida pelo ensinamento maçónico, no sentido de que ele contempla a visão de uma sociedade paradigma, alicerçada num modelo dialéctico que opõe o vício contra a virtude. Equivale ao que chamamos de mundo espiritual, em contraste com o mundo material. O que pertence ao mundo dos sentidos corrói-se e desintegra-se com a acção do tempo. Mas tudo o que percebemos, todos os itens que constituem a nossa realidade são formados a partir das “Ideias”, entidades arquetípicas que existem independente de nós, e os nossos pensamentos e desejos constituem cópias imperfeitas destes modelos espirituais. Só podemos atingir a realidade das “Ideias”, na medida em que pelo processo dialéctico, a nossa mente vai depurando sistematicamente o discurso, para se chegar à essência do mundo. Neste sentido, a dialéctica não é só um instrumento de busca da verdade, mas também de realização de um ideal, pois à medida que a virtude vai substituindo o vício, este processo dialéctico de substituição do vício pela virtude vai se realizando naturalmente [9].

Igualmente notável, pela analogia que podemos fazer com os ensinamentos maçónicos, é a alegoria da caverna, utilizada por Platão para ilustrar como os nossos sentidos são falhos para perceber a realidade do mundo. Nesta alegoria Platão concebe um grupo de pessoas vivendo acorrentado dentro numa caverna desde o momento do seu nascimento. Eles vivem de costas para a entrada e só podem ver, reflectidas na parede da caverna, as sombras do mundo real. Para elas, as sombras são tudo o que existe no mundo, pois são o que os seus sentidos registam. Um dia, um dos habitantes da caverna livra-se das amarras e foge. Fora da caverna, acostuma-se com a luz, vê a beleza e a vastidão do mundo, com as suas cores e contornos. Vê o mundo na sua inteira conformidade. Ao voltar para a caverna para libertar os seus companheiros, acaba por ser assassinado por eles, pois estes não acreditam nele [10].

Nesta composição encontramos uma clara alusão à ideia maçónica de que as Lojas são um “mundo” onde os Irmãos encontram a luz. O mundo exterior é a “caverna” onde os profanos estão amarrados, contemplando apenas as sombras que o mundo dos sentidos projecta. Por isso, o profano que “bate ás portas do templo” em busca de iniciação nos “Mistérios maçónicos”, é um indivíduo que anda nas trevas e ali está em busca de luz.

Por fim, é útil registar que a República de Platão trata de inúmeros temas que cabem muito bem no contexto das preocupações da sociedade moderna. Nela são discutidos aspectos da superpopulação, a forma de administração, a educação, a forma correcta de se exercer a política, a moral, os bons costumes, e principalmente o ideal da fraternidade, que é o estofo sobre o qual o Estado ideal deve ser levantado. Apesar das conotações fascistas que alguns estudiosos lhe deram, — e essa conotação existe e não pode ser negada —, a República de Platão é o arquétipo inspirador de todas as utopias que a mente humana, posteriormente, produziu. E nelas, como se vê, está incluída a ideia que norteia a prática da maçonaria. Não é outra a razão de Platão estar incluído entre os oito pilares da Cripta da Sabedoria maçónica.

Por isto entendermos que para conhecer a maçonaria, seria útil aos Irmãos uma incursão, ainda que breve, nesta obra essencial do grande filósofo grego.

João Anatalino Rodrigues

Notas

[1] Todas as utopias sonhadas pelos diversos filósofos que desenvolveram esta ideia têm como base a República de Platão. Destacam-se, neste sentido, a Utopia de Thomas More, a Cidade do Sol, de Campanella, e a Nova Atlântida de Francis Bacon.

[2] Figura que se projecta no Venerável Mestre da Loja, sendo a Loja o simulacro do universo.

[3] Os grandes vultos da história grega eram iniciados nos Mistérios. Alcebiades, o grande general que derrotou os persas, Sólon, o grande legislador, e os próprios filósofos. Platão inclusive, reconhece que os Mistérios de Elêusis foram instituídos por homens de grande sabedoria e Sócrates dizia que os iniciados nos Mistérios eram pessoas iluminadas pelos deuses.

[4] Imputação que também seria feita à maçonaria, de contemplar um ideal elitista, pois que busca no escol da sociedade os seus quadros.

[5] Num sentido mais moderno, esta é a proposta da maçonaria.

[6] Razão pela qual, a maçonaria, especialmente nos ensinamentos dos graus superiores irá ocupar-se destas questões. Em grande parte destes ensinamentos, é a Ética da Republica de Platão que irá servir de balizamento para o chamado “filosofismo” maçónico.

[7] Esta acusação não se faz sem razão, pois uma das primeiras aplicações práticas das ideias de Platão ocorreu durante a sua própria vida com a chamada Tirania dos Trinta (em grego ο Τριάκοντα, hoi Triakonta), uma espécie de oligarquia que governou Atenas entre 403 e 404 a.C.. Era um colegiado composto por trinta magistrados que ficou conhecido como o Conselho dos Tiranos, liderado por Crítias, que por sinal era tio de Platão. Supõe-se que Platão se tenha inspirado nesta experiência para compor esta que é a sua principal obra.

[8] Proposta hospedada nas Constituições de Anderson, segundo a qual um Maçon não pode ser “libertino religioso nem ateu estúpido”.

[9] Esta é a ideia nuclear que irá inspirar o gnosticismo cristão, que aliás, está presente em todo o ensino maçónico. Esta ideia é a de que, à medida em o individuo progride em virtude, ele vai purgando os seus vícios até atingir um estágio de pura iluminação. Da matéria para a espiritualidade. Este é sentido da lição contida na formidável metáfora da “Escada de Jacó”, que todo Maçon conhece, pois ela é reproduzida na alegoria da “Escada Mística”, encontrada num dos graus superiores da maçonaria.

[10] Acredita-se que esta alegoria foi composta por Platão por inspiração do episódio ocorrido com o seu mestre Sócrates, que foi executado pelo governo de Atenas sob a acusação de perverter a juventude com as suas ideias consideradas subversivas.

 

Fonte: freemason.pt

By | 2019-11-14T11:13:35+00:00 novembro 19th, 2019|Notícias|Comentários desativados em A maçonaria e a República de Platão