O ofício do Maçon

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O ofício do Maçon

O ofício de construtor sempre teve um carácter sacro, uma mística própria, uma aura de espiritualidade que o tem acompanhado através dos séculos.

Conquanto nas sociedades da antiguidade já existisse o costume de sacralizar o seu ofício, foi somente na Idade Média que esta prática ganhou status de verdadeira tradição. A transformação da habilidade operativa em ideal especulativo foi a grande realização dos nossos Irmãos medievais.

Foram estes profissionais, mais religiosos que técnicos, mais místicos que filósofos, que perceberam que o ofício do construtor, pelas suas características de integralização de formas, manipulação de símbolos e conhecimentos de geometria e matemática, era o que mais se prestava a um ideal, que via no trabalho das mãos, uma forma de realizar a união do espírito com a matéria, cumprindo assim a missão do homem sobre a terra. A arte de construir era aquela que permitia ao seu praticante, ao mesmo tempo, o provimento das necessidades profanas, necessárias para ganhar a vida, e uma realização espiritual.

Especialmente a construção de igrejas, pela mística que nelas se imprimia, era o que mais se prestava a produzir nos seus construtores uma sensação de mágica transcendência, que os fazia crer serem eles os canais pelos quais fluía a própria inteligência divina. Na construção daqueles edifícios monumentais, os artistas da pedra acreditavam imitar o trabalho de Deus na construção do universo.

Com efeito, a catedral medieval não era apenas o local onde os homens podiam sentir-se em comunhão com o divino. Ela não era apenas uma obra do engenho humano, construída para um determinado fim, mas antes, um simulacro do universo, onde todas as manifestações da vida individual e colectiva da sociedade se condensavam e encontravam o devido encaminhamento.

Fulcanelli descreve magistralmente esta síntese do espírito medieval: “Santuário da Tradição, da Ciência e da Arte, a catedral gótica não deve ser olhada como uma obra unicamente dedicada ao cristianismo, mas antes como uma vasta coordenação de ideias, de tendências, de fé populares, um todo perfeito ao qual nos podemos referir sem receio desde que se trate de penetrar o pensamento dos ancestrais, seja qual for o domínio: religioso, laico, filosófico ou social” escreve este poeta alquimista, denotando a densidade espiritual que se condensava naquele edifício, reflectindo todas as tendências da vida medieval. “Se há quem entre no edifício para assistir aos ofícios divinos, ” prossegue ele, “se há quem penetre nele acompanhando cortejos fúnebres ou os alegres cortejos das festas anunciadas pelo repicar dos sinos, também há quem se reúna dentro delas noutras circunstâncias. Realizam-se assembleias políticas sob a presidência do bispo; discute-se o preço do trigo ou do gado; os mercadores de pano discutem aí a cotação dos seus produtos; acorre-se a este lugar para pedir reconforto, solicitar conselho, implorar perdão. E não há corporação que não faça benzer lá a obra prima do seu novo companheiro e que não se reúna uma vez por ano sob a protecção do santo padroeiro” [1].

A egrégora

Aí está, portanto, demonstrada de forma insofismável a convergência do espírito humano para um único ponto, onde ele poderia atingir um pico máximo de densidade energética, facilitando a comunicação com a divindade. E a egrégora que se forma, sublimando o psiquismo do homem, na sua busca por uma comunhão com Deus. Daí o facto de a catedral gótica ter sido considerada um arquétipo perfeito das construções humanas, e o modelo ideal para se realizar o aprimorar do espírito através do trabalho manual. Esta mística, esta elevação da alma aos domínios mais subtis do espírito só iria ser alcançada mais tarde pela prática da Alquimia, que no seu rigor ritualístico e no ascetismo da sua prática, visava a mesma finalidade.

Diante disto, não causa escândalo o facto de os maçons operativos chamarem Deus de Sublime Arquitecto do Universo, e a si mesmos dos seus pedreiros, porquanto eles eram como se fossem os seus Demiurgos,construindo na terra os modelos do universo que Deus construía no cosmo. Com efeito, na perfeição das formas, na solidez das estruturas, na harmonia do conjunto, obtida pela perfeição com que se elaborava cada detalhe, é preciso reconhecer, nesta obra máxima da arquitectura medieval, uma construção de espírito, realizada não só a partir da actuação do engenho humano sobre a matéria, mas da própria interacção entre a essência da matéria trabalhada e o espírito do artesão que a manipulava. Desta ideia a uma sacralização do ofício do construtor foi apenas um passo.

A questão da iniciação

Jean Palou diz que nos tempos primitivos, o ofício sacralizado já pertencia ao domínio do esoterismo, razão pela qual os seus conhecimentos eram transmitidos por iniciação [2]. Isto é verdade, pois embora todos os profissionais da construção, fossem, de certa forma, iniciados, somente a iniciação não lhe conferia uma realização espiritual total. Esta só acontecia com o cumprimento de uma longa cadeia iniciática, na qual se praticava uma liturgia ritual própria, onde o obreiro absorvia o “espírito” da profissão e com ele se integrava tomando-se um eleito. “A iniciação”, escreve aquele autor, “nas suas formas, nos seus meios, nos seus objectivos, Una no seu espírito, múltipla, porém, nas diferentes aplicações das técnicas peculiares a cada ofício, pela Sabedoria que preside à elaboração lógica da Obra, pela Força que possibilita a sua realização efectiva, e pela Beleza que proporciona o Amor a cada realizador, isto é, o Conhecimento, ajudava o artífice a despojar-se do homem velho, para se transformar num novo homem, criador de objectos e forjador de um novo mundo, finalmente harmonioso [3].

Eis o porquê de não se permitir ao iniciado, inicialmente um mero Aprendiz, compartilhar com os Companheiros-Mestres os mesmos símbolos, senhas, comportamentos e práticas. E mesmo entre os Mestres impunham-se distinções de grau, pois se todos eram iniciados e ostentavam os mesmos títulos profissionais, muitos poucos, entretanto, eram eleitos, ou seja, tinham obtido elevação espiritual de modo a serem considerados Mestres também nesse sentido.

Quando a Maçonaria operativa evoluiu para o especulativo, e mais tarde, quando o especulativo integrou na sua liturgia as tradições do Hermetismo e da Gnose, a mística da profissão do construtor aliou-se ao encantamento próprio da prática alquímica e ao apelo emocional contido na mensagem gnóstica. Se anteriormente, o ofício de construtor se realizava num domínio que era antes de tudo religioso e social, passou, depois disto, a preencher um vasto campo no domínio filosófico e espiritual, pois a especulação, mais que a prática pura e simples de uma arte, ou uma técnica, exige mais da sensibilidade do artista do que a razão e a habilidade física requerem dele. O artista, o técnico, que antes aliava o sentimento religioso ás técnicas da sua arte, teve que buscar nos domínios do esoterismo as justificativas para a sua prática. Depois, no inicio do século XVIII, quando a Arte Real incorporou a mensagem iluminista, foi preciso o desenvolvimento de uma liturgia ritual que possibilitasse a divulgação da nova filosofia, mas que, ao mesmo tempo, transmitisse a mensagem iniciática original de uma sociedade que jamais abandonara as suas tradições de construção, ainda que esta construção, agora, fosse apenas simbólica. A realização espiritual buscada no exercício do ofício, ou na prática da filosofia hermética, passara agora, a ser uma realização moral, onde o iniciado aprenderia a educar-se para ser virtuoso, a partir de um novo arquétipo de homem, que era o Homem Universal. Era um aprendizado de filosofia moral em busca de um êxtase espiritual que a cadeia iniciática da Maçonaria iria proporcionar aos que nela se iniciavam. Nascia, desta forma, a Maçonaria moderna.

João Anatalino Rodrigues

Fonte: freemason.pt

By | 2019-08-05T09:54:24+00:00 agosto 6th, 2019|Notícias|Comentários desativados em O ofício do Maçon